Dos articulistas da Veja, só costumo ler o Diogo Mainardi e o Gustavo Franco. Mas
esse artigo do Stephen Kanitz me chamou a atenção, pois parece bem razoável essa associação que ele faz entre nosso sofrimento pretérito nas mãos do Tribunal do Santo Ofício e nosso temor atual de dizer algo que desagrade sabe-se lá a quem.
E se esse temor é visível na sociedade brasileira como um todo, fica ainda mais claro dentro da máquina pública: barnabé morre de medo da imprensa. Se antes os algozes responsáveis por nossos piores pesadelos eram os clérigos e suas fogueiras, hoje são os jornalistas e suas pautas. É um medo quase supersticioso, como minha avó tinha medo de sapo, pois era "bicho ruim". O pânico se instala a cada vez que toca o telefone e a voz do outro lado manda um "bom dia, aqui é o Fulano de Tal, sou jornalista do periódico A/B/C e gostaria de conversar com alguém aí a respeito do assunto X/Y/Z". Pode ser o assunto mais banal da repartição, algo que todo mundo conhece e que poderia ser discutido até pela moça do cafezinho, mas encontrar alguém disposto a conversar com o pobre do jornalista é uma via crucis. A resposta-padrão para esses casos é "olha, no momento meu superior imediato não se encontra e eu preciso falar com ele antes pra ver se ele me autoriza, então deixa seu telefone que nós te retornamos quando for o caso (
isto é, dentro de uns quatro ou cinco séculos)". A primeira coisa que vem à mente do barnabé é "pq esse cara tá querendo saber desse assunto?" e daí às teorias conspiratórias é um pulo: "deve ser alguém da oposição querendo armar pra cima do governo"; "é alguém a mando do chefe pra me testar"; "é um lobista querendo forçar um contato com alguém aqui da repartição" e por aí afora. Quando a notícia do telefonema se espalha pela repartição, o dia de trabalho está morto e aquele será o único assunto possível em todas as mesas: "meu Deus, o que eles querem com a gente?"; "mas nós não fizemos nada!"; "e agora, como vamos sair dessa?". Aí o povo elabora artimanhas para evitar o jornalista: "olha, vamos combinar assim, quando ele ligar de novo, vamos dizer que o assessor de imprensa (
que não existe) está de férias e que só ele poderia falar." E isso tudo independente de o jornalista querer conversar sobre os documentos secretos da Operação Condor ou sobre o consumo mensal de clipes de papel na repartição. A relação entre sigilosidade das informações e a relevância destas para a segurança nacional ou para a proteção de terceiros é virtualmente inexistente: jornalista é bicho ruim e pronto.
Claro que jornalista é um bicho manhoso: se eles querem saber B, perguntam A e C e tiram B por inferência. Há que se ter cuidado para não revelar o que de fato não pode ser revelado, de acordo com a legislação atinente à confidencialidade dos documentos e informações públicas (putz, virei barnabé mesmo: o primeiro sintoma é justificar alguma coisa com base na lei e não na lógica ou na razão...). Mas não se pode esconder algo essencialmente público apenas pq "não sabemos como ele vai usar essa informação". Ora, ele usa como quiser, o papel do governo é dizer à sociedade o que está fazendo, mas o julgamento cabe ao distinto público. Não dá pra sonegar informações no intuito de impedir uma eventual análise negativa das mesmas. Contudo, algo em nossos genes culturais parece nos remeter continuamente à imagem de fogueiras tostando infelizes que falaram o que não deviam.
(Se bem que na nossa "Repúbrica dos Cumpanhero", como bem a apelidou o
Guto, é bom mesmo o cara pensar duas, três vezes antes de dizer alguma coisa a alguém, pois caso contrário os "cumpanhero di cima pódi num gostá" e, aí, adeus cargo de confiança.)